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O uso de ácidos orgânicos e óleos essenciais na suinocultura

MATÉRIA TÉCNICA | M. Cassab

A suinocultura é uma atividade cada dia mais tecnificada e moderna. O campo, em parceria com a academia, trabalha em busca de conhecimento e inovação nos diversos setores da cadeia produtiva, como genética, bem-estar, saúde e nutrição. Diante desse cenário, somado às recentes mudanças na regulamentação para a produção de suínos no Brasil, o setor se volta cada vez mais à busca pela alta produtividade e pela promoção da saúde intestinal dos animais através da nutrição de precisão e do uso de produtos que possibilitem a redução no uso de antimicrobianos, como os ácidos orgânicos e os óleos essenciais, que vêm sendo amplamente utilizados.

Dentro do ciclo de produção, os suínos se deparam com inúmeros desafios, dentre eles, desafios nutricionais e sanitários, como a desmama precoce, a síndrome da diarreia pós desmame e outros, que acometem não somente os leitões como todas as fases da criação. Historicamente, os antibióticos são a arma considerada mais eficaz e é a mais utilizada no combate a esses desafios. No entanto, mudanças no perfil de consumidores finais, na legislação nacional e nos países para onde o Brasil exporta, estão levando os produtores a reduzirem o consumo de antibióticos, principalmente quando usados como melhoradores de desempenho.

Diante das inúmeras tecnologias que são lançadas no mercado com o intuito de reduzir o uso de antimicrobianos, duas das que mais se destacam são os ácidos orgânicos e os óleos essenciais, que possuem ação comprovada sobre a população bacteriana do trato gastrointestinal dos animais.

A palavra “ácido” automaticamente remete à redução de pH, e essa é justamente uma das principais ações dos ácidos orgânicos, a redução do pH da porção superior do trato gastrointestinal. Leitões desmamados, não possuem a capacidade de acidificação adequada do estômago através da produção de HCl, os ácidos orgânicos auxiliam nesse processo, que é fundamental para a digestão, proteção contra agentes patogênicos, e ativação de enzimas como a pepsina, que atua na digestão de proteínas. Esses efeitos são benéficos não apenas aos leitões, mas se estendem a todo o plantel, já que muitas vezes as dietas fornecidas aos animais possuem um alto poder tamponante, ou seja, dificultam a acidificação no estômago, reduzindo a ação enzimática sobre a dieta e consequentemente diminuindo o aproveitamento dos nutrientes pelos animais.

Além da melhora na digestibilidade da dieta, os ácidos auxiliam na regulação da microbiota do estômago e intestino. Um pH mais alto ou mais básico, propicia o desenvolvimento de populações bacterianas patogênicas, como E. coli e Salmonella spp., enquanto a redução do pH favorece a propagação de bactérias benéficas, como os Lactobacillus spp. Além disso, os ácidos orgânicos também possuem a capacidade de acidificação do veículo através do qual são fornecidos aos animais, que pode ser a água ou a ração.

O fornecimento de ácidos orgânicos via ração, auxilia não somente na saúde intestinal dos animais, como também na qualidade e preservação da ração. Os primeiros estudos realizados com ácidos orgânicos na nutrição animal, tinham como objetivo a preservação de grãos armazenados, já que os ácidos inibem a proliferação de fungos e bactérias. O mesmo ocorre quando se fornece os ácidos via água. Com a redução do pH, ocorre uma sanitização da água, que já começa a ser tratada antes de ser ingerida pelos animais. A acidificação também estimula o consumo de água, o que é uma vantagem principalmente para animais debilitados, que podem ficar desidratados e que não consomem ração suficiente para que tratamentos via ração tenham efetividade.

Além da atuação por meio do pH, os ácidos orgânicos podem também atuar diretamente no controle das bactérias patogênicas (Gomez-García, 2019). O ácido não dissociado penetra a parede da bactéria (HIRSHFIELD, 2003), se dissocia dentro do citosol alterando seu pH interno, e numa tentativa de reestabelecer o pH, a bactéria acaba morrendo por exaustão. Existe uma grande variedade de ácidos orgânicos, dentre eles, os que se destacam são os de cadeia curta, como os ácidos lático, fórmico e propiônico. Sabe-se ainda que esses ácidos possuem uma grande sinergia com óleos essenciais, como por exemplo o cinamaldeído, que é o óleo essencial extraído da canela. Ou seja, o fornecimento dos ácidos associados ao óleo essencial, não apenas soma suas ações como as potencializa.

Os óleos essenciais, são compostos extraídos de diversas partes de plantas, como folhas, caules, raízes e frutos, e têm por função a proteção dos próprios vegetais, inclusive contra o ataque por fungos, bactérias e outros patógenos. As características físico-químicas dos óleos essenciais permitem com que penetrem facilmente as paredes das bactérias, desestabilizem suas membranas, o que pode ocasionar uma perda de macromoléculas, e levem também a uma despolarização de seu interior, enfraquecendo as bactérias e reduzindo seu potencial de produzir toxinas.

Assim como os ácidos orgânicos, os óleos essenciais também otimizam o processo digestivo, ao estimular a produção de saliva e secreções gástricas e pancreáticas. O estímulo a secreção de suco gástrico reforça o efeito da redução do pH do estômago que se obtém através do uso dos ácidos orgânicos, o que deixa clara a vantagem da utilização associada dos dois compostos.

O efeito do uso de ácidos sobre o desempenho dos suínos varia de acordo com alguns fatores, como os ácidos utilizados, a concentração, tempo de exposição, desafio sanitário, qualidade da água, potencial tamponante da dieta e idade do animal. Por isso, é fundamental que o seu uso, seja ele via ração ou via água, tenha o acompanhamento técnico de um profissional da área, para que se faça o tratamento da forma mais adequada possível, e assim se obtenha maior eficiência em desempenho dos animais e lucratividade para a granja.

O mercado está em uma constante busca por soluções para o produtor rural, trazendo sempre alternativas para auxiliar no combate aos novos desafios. Por isso é muito importante que o produtor se mantenha bem informado, para que esteja sempre preparado, e se destaque no cenário da suinocultura nacional.

Carolina Dias Fernandes.

Referência Bibliográfica: GOMEZ-GARCÍA, M.G. et al. Antimicrobial activity of a selection of organic acids, their salts and essential oils against swine enteropathogenic bacteria. Porcine Health Management, Spain, 5:32, 2019.
HIRSHFIELD, I.N. et al. Weak organic acids: a panoply of effects on bacteria. Science Progress, 86, 2003.

M. Cassab - 23.01.2020 - 17h39min

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